Dia Mundial da Obesidade: Brasil registra aumento de 118% nos casos em quase duas décadas

- 04/03/2026

No Dia Mundial da Obesidade, o Conselho Regional de Nutrição 4ª Região (CRN-4) chama atenção para o avanço da doença no país. Dados da pesquisa Vigitel, do Ministério da Saúde, mostram que a prevalência da obesidade cresceu 118% entre 2006 e 2024, atingindo 25,7% da população adulta, o equivalente a um em cada quatro brasileiros.

O aumento foi mais expressivo entre adultos de 25 a 34 anos, mulheres e pessoas com ensino médio completo e superior incompleto. O cenário coloca o Brasil acima da média global. No recorte por estados, o Rio de Janeiro ocupa a segunda posição no ranking nacional, com 40,6% de adultos com obesidade, atrás do Rio Grande do Sul, com 42%.

Para o CRN-4, os números reforçam a necessidade de tratar a obesidade como uma condição crônica e multifatorial, que exige resposta coordenada do poder público, dos profissionais de saúde e da sociedade. A nutricionista conselheira da instituição, Jenifer d'El- Rei, destaca que é preciso compreender a complexidade do tema.

“O crescimento de 118% documentado pelo Vigitel reflete uma tendência multifatorial e estrutural, não somente uma falha individual. Entre 2006 e 2024 houve mudança no perfil de oferta e consumo de alimentos, transformação dos padrões de trabalho e de deslocamento urbano, redução do tempo disponível para preparações caseiras, e persistentes desigualdades socioeconômicas que limitam o acesso a alimentos saudáveis”, afirma. 

Segundo ela, o grupo entre 25 e 34 anos vive uma fase marcada por maior carga de trabalho, instabilidade de rotina, piora na qualidade do sono e redução da prática de atividade física, fatores que favorecem o consumo de alimentos ultraprocessados e padrões alimentares desorganizados. Entre as mulheres, questões biológicas e sociais ampliam o impacto:

“No caso das mulheres, alguns fatores tornam o impacto ainda mais evidente. Há questões biológicas, como oscilações hormonais ao longo da vida reprodutiva, gestação e pós-parto, que podem influenciar composição corporal e regulação do apetite. Além disso, existem determinantes sociais relevantes: dupla jornada de trabalho, maior sobrecarga de responsabilidades domésticas e menor tempo disponível para autocuidado.”

De acordo com a nutricionista, há estudos populacionais que mostram como a desigualdade de renda e acesso a serviços de saúde afetam desproporcionalmente mulheres jovens, o que pode dificultar a prevenção e acompanhamento precoce. Portanto, o crescimento mais acentuado nesse grupo resulta da interação entre fatores biológicos, comportamentais e sociais, e não somente de escolhas isoladas. 

A obesidade está associada a doenças crônicas não transmissíveis, como hipertensão, diabetes tipo 2 e acidente vascular cerebral (AVC), e representa hoje um dos principais desafios de saúde pública do país.  O baixo consumo de alimentos in natura e minimamente processados, aliado ao aumento do consumo de produtos ultraprocessados, tem impacto direto nesse cenário, estando o excesso de peso diretamente relacionado principalmente à qualidade da alimentação. 

“Esses produtos são formulados para serem altamente palatáveis, práticos e amplamente acessíveis, o que favorece maior ingestão calórica no dia a dia. Além disso, possuem características que interferem na saciedade e na regulação do apetite, facilitando o consumo excessivo de energia sem que a pessoa necessariamente perceba”, explica. 

Para o Conselho, enfrentar o problema exige medidas que vão além da responsabilização individual. A entidade defende regulação mais firme da publicidade, da rotulagem e da oferta de ultraprocessados, especialmente em ambientes escolares.

“Escolhas individuais existem, mas são fortemente condicionadas por ambiente e estrutura social. Escolher alimentos minimamente processados demanda tempo, dinheiro, disponibilidade local e políticas públicas que tornem essas opções acessíveis e atraentes. Em contextos onde há ampla oferta e promoção de ultraprocessados, baixos salários, jornadas longas e infraestrutura urbana que dificulta atividade física, a “escolha” individual fica sugestionada”, ressalta. 

A prevenção é a melhor estratégia para garantir a saúde e o bem-estar da população. É papel do nutricionista incentivar hábitos saudáveis, alimentação adequada e prática de atividades físicas em prol do bem-estar e mais qualidade de vida. Segundo Jenifer, o atendimento deve ser individualizado e livre de estigmas.

“A abordagem deve ser individualizada, considerar aspectos biopsicossociais. Isso inclui avaliação clínica e social, metas focadas na saúde, e não apenas no peso, plano alimentar sustentável adaptado à rotina, suporte à saúde mental quando necessário e encaminhamento médico quando indicado. Desestigmatizar é fundamental, pois o preconceito dificulta o cuidado e reduz a adesão ao tratamento, além de contrariar a ética profissional.”

O CRN-4 reforça a importância de tratar a obesidade como uma condição, não como um rótulo ou uma escolha. Na nutrição, não há abordagem única para todos e que o objetivo principal não deve ser a obtenção de um corpo magro, mas sim um corpo saudável, que pode variar significativamente de pessoa para pessoa.

Por: Kézya Paiva (Assessora de Comunicação)

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